segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Stalker

E então? O que você faria? O que você faria se a garota dos seus sonhos estivesse diante dos seus olhos? Antigamente eu faria, mas hoje em dia não faço mais nada.
“Limpe as mãos após usar o banheiro”. É o que está escrito na parede. Isso aqui é um hospital, será que quem está aqui dentro não tem consciência de que deveria fazer isso? Será que é preciso que se diga isso toda vez os outros façam? Às vezes eu esqueço realmente que deveria lavar a mão, prefiro estar consciente de que deveria e assim não fazer, é uma das minhas formas de protesto contra a sociedade. Nunca lavar as mãos. O faxineiro que não lava as mãos, que aperta a mão de médicos (quando estes cumprimentam e estendem a mão, como se fossemos importantes, como se ligassem para nossa existência ali, como se realmente reconhecessem nosso papel ali) com elas sujas, após um dia de trabalho ou após usar o banheiro.
Trabalho o dia inteiro e depois pego meus 3 ônibus para chegar em casa. É frustrante tal vida, porém não existe outra forma. Uns nascem para ser médicos, outros para serem faxineiros, uns nascem para serem ricos e gastar o suficiente para sustentar três famílias, em apenas uma tarde no shopping e outros nascem para vender roupas para esses ricos.
3 ônibus. Cada ônibus leva em média meia hora para fazer seu percurso. Uma hora e meia para ir para o trabalho, uma hora e meia para voltar para casa. Três horas. Mais doze horas de serviços. Quinze horas. Eu preciso dormir seis horas. São vinte e uma horas, me sobrando assim três horas para fazer coisas pra mim, mas eu acabo não fazendo quase nada. Nessas três horas que me restam eu navego no computador, no facebook atrás de entretenimento, atrás de uma mulher, atrás de algo que me faça esquecer os problemas. É por lá que eu vistorio a vida de todos com que trabalho. Sei quem são, o que gostam, onde vão, mesmo que nem saibam quem sou eu. Comecei a fazer isso por causa da Liana. Uma médica do hospital. Na época era recém chegada.  Branquinha, magrinha, fragilzinha, totalmente delicada como os anjos devem ser, nariz afilado, cílios compridos dando a ela um charme digno de Cleópatra, e o sorriso? Nossa, e que sorriso, era capaz de transformar um dia péssimo em algo bom só com aquele sorriso. Liana, a médica recém formada. Como poderia haver algo tão lindo nesse mundo? Como poderia deus permitia que num mundo de pecadores, um ser tão perfeito pudesse habitar? A sua beleza me fazia chorar, me deu esperança, mas esperança de que eu não sei. Eu era um simples faxineiro e ela uma doutora, em que mundo daríamos certo? Em que mundo ela me daria bola? Mas eu tinha esperança, a esperança é a última que morre, morre até depois da dignidade, dignidade essa que nunca tive, eu catava lixo de um povo que eu odiava e ainda tinha que rir para eles.
Anjos tem nome? Aquele em especifico tinha, se chamava Liana, mas de início eu não sabia, tinha que descobrir. Porém um faxineiro não poderia chegar do nada numa médica e perguntar seu nome, eu tinha meu lugar, catando lixo. Poderia dar um jeito de descobrir o nome do anjo que iluminava aquele lugar. Não podia perguntar para alguém, porque ali eu era ninguém, ali e todo o mundo, para que um faxineiro iria querer saber aquela informação? Eu podia tentar limpar a sala dela e assim descobrir, foi o melhor plano que tive, seria isso.
Lembro do dia, entrei em sua sala, ela estava lá sentada na sua escrivaninha, levantou os olhos para me ver, riu para mim, meus joelhos tremeram e eu fiquei petrificado na porta, ela disse: “pode entrar”. Me movi, a sala cheirava a seu perfume de alfazema. “Com licença doutora”.
Fui juntando os lixos, até que cheguei no que ficava aos seus pés abaixo da mesa, baixei para pegar e nesse momento contemplei as pernas de um anjo, lisas, saiam por baixo da longa saia preta, fui tentado a tocar, mas o meu medo me controlou e me tirou do transe hipnótico que estava. Coloquei todo o lixo no saco e então saí da sala. Corri para a dispensa de materiais de limpeza, como uma criança que corre no dia de natal que corre para a árvore para ver que presentes ganhou. Despejei o lixo no chão, e comecei a procurar por algo e entre o meio dos papéis, lá estava, Dr. Liana Villar. Esperei até a hora de chegar acabar o trabalho. Mais uma hora e meia nos ônibus e eu estava em casa. Liguei o computador e pude procurar Liana no facebook.
Lá estava, loira e divina. Eu não poderia adicioná-la. Não, mas poderia ver o que ela gostava, quem ela era. Gustavo Lima? Ela gostava. A culpa é das estrelas, essas coisas. Mas sua beleza fazia todas essas coisas idiotas parecerem nada.
Não dormi nesse dia, extasiado pela felicidade, olhei minunciosamente todas as suas fotos.
Todo dia passou a ser a mesma coisa, estava sempre por perto dela, mesmo que ela não me notasse, mas quando notava, sempre sorria para mim.
Um dia, quando cheguei em casa, havia algo que a muito tempo não acontecia.
Uma solicitação de amizade. Alguém sabia quem eu era e queria ser meu amigo no facebook. Pode parecer pouco e que não era motivo para ficar feliz, mas estamos falando de mim, então é grande coisa.
Era ela, Doutora Liana Villar. Quase cai para trás na cadeira. Foi tanta emoção que meu coração queria gritar.
Eu mal podia acreditar. Imaginei mil coisas no momento. Me vi casado com ela, com filhos, caminhando de mãos dadas pelas areias da Copacabana.
Não pude dormir esse dia também.
No dia seguinte, fiquei rindo para ela e ela ria pra mim. Julguei que era cedo demais para trocar palavras.
Passei então a defende-la de médicos espertos que queriam se aproveitar de sua inocência e bom coração. Nesses hospitais os “médicos estrelas” acham que podem ter a mulher que quiserem, mas eu sempre estava por perto e sempre dava um jeito de interromper um flerte que algum desses lançasse sobre a minha Liana, fosse derrubando algo ou chamando o médico para ir para uma emergência que nem se quer existia.
Após algumas semanas trocamos palavras no corredor. “Boa tarde Doutora”. “Boa tarde”.   E ai vinha aquele lindo sorriso que ela sempre dava.
Naquela noite havia uma curtida na minha foto de perfil. A primeira curtida que recebi em uma foto minha. Era de Liana. Agora sim eu tinha muitas esperanças.
Decidi que a chamaria para tomar algo qualquer dia.
“Bom dia doutora Liana... É que eu acho a senhora muito linda e tenho muita admiração pela senhora e gostaria de saber se a senhora não gostaria de ir tomar algo qualquer dia comigo”.
Ela arregalou os olhos e disse: “Eu sinto muito, mas nós nem nos conhecemos, além disso eu tenho compromisso e nós fazemos parte de universos tão diferentes, desculpe, eu realmente sinto muito”.
Sente muito? Me deu vontade de chorar de vergonha. Ela virou as costas e foi embora. As palavras ecoavam na minha cabeça: “fazemos parte de universos tão diferentes”, “sinto muito”.
Olhei para trás e lá estavam outros faxineiros morrendo de rir. Um deles perguntou: “o que foi? Ela não aceitou sair com você? Ahahahaha. Depois de te adicionar no facebook e curtir sua foto ela deveria ao menos aceitar ir tomar um café contigo não é?” e todos caíram no riso. Como fui tão ingênuo? Como não percebi que deveria ser armação? Os outros faxineiros criaram um fake e me enganaram, porque fizeram isso? Acho que sair da monotonia diminuindo um idiota que sonhava.
Em que mundo eu poderia ter alguma chance? Nunca deveria ter tido esperança, ela me cegou.
Uns nascem para serem humilhados, servir de palhaço pros outros, limpar a sujeira dos outros e outros, nascem para não lavar as mãos depois de usar o banheiro.

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