domingo, 14 de setembro de 2014
Caramelo Macciato
Tinha 18 anos, era uma jovem rapariga. Morena, lindos olhos, nariz estranho, boca com uma expressão de nojo que dava um leve charme de superioridade.
Chorava naquele momento, estava a relembrar o momento mais difícil da curta vida.
Na época em que tudo ocorreu, tinha 15 anos, era mais jovem ainda.
As lágrimas desciam os olhos como torneiras da casa de pobres, gotejando pontualmente a cada três segundos, era tão mecânico que parecia ser falso. Eu diria isso se não fosse insensível demais de minha parte, tais palavras nunca poderiam sair de minha boca, eu era politicamente correto demais para poder ao menos pronunciar tal sentença, então guardava só pra mim, no meu íntimo.
Ela chorava, enquanto isso eu fingia anotar coisas no meu caderno de anotações, mas na verdade eu jogava jogo da velha contra mim mesmo.
Foi ai que ela conseguiu prender minha atenção.
Falou: “ eu não aguento mais isso, minha vida foi destruída a 3 anos, e pelo meu próprio pai”.
E ai começou a contar um dos mais tristes relatos que ouvi na vida. Teria sido mais uma seção chata com um paciente chato se aquilo não tivesse acontecido.
Aquela pobre garota havia sido violentada.
Filha de pais separados, por muito tempo ela morou com o pai, até então tudo normal, várias pessoas passam por isso.
Tudo mudou numa noite, quando o pai voltou tarde pra casa, ele fedia a álcool, ele mandava palavrões.
A pobre garota ficou com muito medo, escondeu-se embaixo dos cobertores, como se aquilo fosse um belo esconderijo, como se aquilo fosse um mundo paralelo onde nada pudesse lhe fazer mais mal.
A porta do seu quarto abriu.
“Filhinhaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Acordaaaaaaaaaaaaa papai quer falar contigo”.
A garota se derramava em lágrimas nessa hora, estiquei o braço para um móvel e mesmo sentado consegui pegar uma caixa com lenços de papel, entreguei-os para que ela pudesse pegar um, ela tomou a caixa de minha mão, como se aquilo fosse algo muito precioso, como se aquilo pudesse apagar a dor dela, eram só papeis. Papeis cumprindo papeis que nunca cumpririam de fato.
O pai a pegou pelo braço, ela tentou fugir, foi acertada com um bofete no rosto, cuspiu sangue, começou a chorar, não adiantou de nada.
Ela mudou a tonalidade de voz com que falava nessa hora, as lágrimas continuavam a descer, mas agora trazia o rosto vermelho com uma expressão de ódio. Falava com tamanho ódio que me assustou.
Ainda era virgem, seu pai foi seu primeiro homem, forçadamente foi o seu primeiro homem.
Eu não dizia nada, apenas assistia a aquele relato espantoso.
Como podia aquela jovem odiar tanto seu pai? Como podia um pai ter feito aquilo com sua filha?
Ela continuou o relato.
“ O que mais me deu ódio foi a cara que ele fazia, trazia um sorriso, um sorriso doentio, de quem sabe que está machucando os outros e mesmo assim continua”.
O choro se tornou compulsivo depois dessa frase.
Perguntei se ela gostaria de um pouco de água. Respondeu que sim. Entreguei-lhe um copo com água gelada, que ela segurou com as duas mãos. Parou de falar, olhou para baixo e a partir desse momento não mais me olhou na cara.
Continuou a história. Naquela mesma noite fugiu de casa. Foi morar na pobre casa da mãe.
Contou tudo para a família, mas nada eles fizeram.
Não era novidade para eles aquelas atitudes do pai.
A mãe era violentada e espancada várias vezes, até que decidiu se separar.
O que a pobre garotinha não percebeu e nem eu me atrevi a dizer foi que todos os abandonaram como cordeiro para abate do lobo mal. Será que ela não percebeu que se todos sabiam o caráter daquele homem, deixar uma garota de 15 anos sozinha com ele não poderia ser arriscado? A verdade, eu sabia, ninguém ligava pra ela, nem a própria vagabunda da mãe, ela nunca ouviria isso da minha boca, meu papel era fazê-la se sentir melhor, não dizer-lhe a verdade.
A partir daqui parei de prestar muita atenção, fiquei pensando o lance da ovelha para o abate, entregada pelos seus próprios donos.
Acabou-se então o horário da moça, ela se recompôs, agradeceu, pagou e marcou um horário para a semana seguinte.
Agradeci e a acompanhei até a porta. Era a última paciente da noite.
Peguei meu carro. Fui para casa.
Subi os degraus da entrada cantarolando “singing in the rain”, tinha sido até um dia interessante.
Fui até a cozinha preparar algo para comer, preparei um belo jantar e comi enquanto assistia a novela das 9. Por que as pessoas nunca percebem quem é o vilão? Essas novelas são tão previsíveis, a vida era tão previsível.
Percebi, ou melhor: “me dei conta”, de que eu não parava de pensar na história daquela menina, subi as escadas até o meu quarto, tirei a roupa, fui até o banheiro, sentei nu no vaso e fiz o auge da minha noite: “ uma bela punheta pensando naquela história”, enquanto me masturbava imaginava a cara de doente que o pai da moça deve ter feito e ao me olhar no espelho da pia percebi que eu também estava fazendo uma.
Na verdade foi por isso que escolhi essa profissão, ouvir a dor alheia, que prazeroso. Uma coisa aquela moça tinha razão certas pessoas sentem-se bem com a dor alheia, é algo mágico.
Acabei minha arte, lavei minhas mãos e desci novamente as escadas para a cozinha, onde para terminar a noite com chave de ouro, preparei um delicioso Caramelo Macciato para tomar antes de ter uma boa noite de sono.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário