quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Creia em mim, creia em deus pai

- Tu tens um dom, Giovanni.

De que vale uma vida, em que tudo perdeu o sentido?
De que vale um simples sentimento, quando sabe-se de onde vêm, e que nada mais são do que química?
Vale de muita coisa, você para de acreditar em tantas coisas, passa a viver mais livre, se torna uma espécie de imoralista, se torna uma espécie de deus, ou, para alguns, o próprio diabo.
Giovanni foi bom até o dia que percebeu que não precisava ser. Depois foi definhando até se assustar com suas próprias ações. Até perceber que se machucaria menos assim na vida.
Desde então se tornou uma pessoa de baixo caráter.

 - Ahhhh Giovanni você entendeu tudo errado, eu queria era teu amigo.

Ouvir isso da garota que se mais quer na vida dói bastante. Dói mais ainda ouvir isso a vida toda. Ou você toma vergonha e muda ou fica na merda para sempre. Alguns enxugam as lágrimas e se tornam verdadeiros gênios, outros são fracos demais e vivem esperando que as coisas vão melhorar, que existe um deus lá em cima que se preocupa e ama eles e que tem uma pessoa especial que no futuro irá aparecer para eles.
Eu não julgo Giovanni, ele tem seus motivos. De fato, quem quiser lhe atribuir adjetivos como cafajeste, sem caráter não erraria, a questão é que alguns gostam de tais adjetivos e se sentem bem em serem odiados.
Giovanni passou a se preocupar somente consigo e curiosamente passou a conseguir as mulheres que desejava dali pra frente.
Conseguiu tantas que se tornou ainda menos preocupado com os sentimentos alheios e ai começou a fazer testes, quanto mais escroto ele era com as garotas, mais elas choravam por ele e mais o amavam.
Masoch sentiria inveja de Giovanni. Fazer sofrer. Tornou-se seu fetiche. Mas com o tempo ele se cansou e foi atrás de coisas mais hardcore.
Chegou ao ápice ao se identificar com um personagem de um livro que lera. Fausto. Mefistófeles e Giovanni seriam a mesma pessoa? Para um bom entendedor Fausto e Mefistófeles eram, Giovanni seria um Fausto então.
Nessa época de identificação, alguns diriam que ele havia chegado ao fundo do poço, se tornou alguém com pensamentos tão maldosos e perversos que talvez até o diabo se assustasse.
O prazer funciona dessa forma, quanto mais estímulos se tem mais se acostuma com eles e mais se quer coisas mais fortes.
Fausto se sentia bem por perverter. Fausto era Mefisto. Mefisto era Giovanni. Todos somos o diabo, é cômico, é poético.
Prazer por perverter. O sexo perde o significado e só o que fica é a ideia de que você tornou uma pessoa pura alguém tão imundo quanto você, era tão mágico para Giovanni que só em saber que ele possivelmente destruiu a vida de alguém ele estava bem, sexo era desnecessário depois disso, ele encontrou o seu nirvana, seu momento de paz e êxtase, ninguém fica tão bem assim com algo que vinha de graça. Bem de graça não, esse estado exigia a desgraça alheia, mas não importava, tantas vezes fizeram isso com ele, ele estava justificado perante o deus que nunca o ajudou.
Karol foi a primeira. As amigas delas ficaram revoltadas em como ele transformou alguém muito legal e dócil em alguém vingativo, que tentava a todo custo ser notada por Giovanni, suas pequenas vinganças não o atingiam, na verdade o divertiam muito e lhe davam muito prazer.
Karol, Karol... Pobre Karol... Karol já era.
Giovanni achava que não poderia ficar apaixonado. Até que conheceu Aline.
Aline, garota gostosa, cabelos pretos. CRENTE. Virgem e levemente inocente, porém inteligente demais para ser enganada tão facilmente. Ela conhecia a fama de Giovanni, o que nesse caso dificultou bastante as coisas, nosso herói não iria desistir tão fácil.
Quanto mais ele tentava mais ela dificultava as coisas, agora era questão de honra para ele.
Aline sabia que ele era um porco egoísta e mal que destruía a vida das pessoas, por isso o evitava, apesar de no fundo sentir-se atraída por ele, como todas as outras.
Como ele faria para se aproximar de uma menina que tinha tantas barreiras e escudos contra ele?
Teve o plano perfeito, o gênio que era concebeu a ideia de fazê-la pensar que havia mudado por conta dela.
Um dia sem que Aline percebesse, Giovanni pegou o celular dela e escondeu. Quando Aline se deu conta de que seu celular tinha sumido, ficou em desespero, lágrimas desciam do seu rosto enquanto ela corria para todos os cantos achando que havia esquecido ele pela lanchonete da faculdade.
Giovanni se mostrou preocupado e a acompanhou. Aline estava tão desesperada, aquele celular fora tão caro para sua família pobre comprar que ela não poderia perder, ela nem percebeu que aquele ser egoísta poderia estar tramando algo.
Os dois corriam para cima e para baixo. Lágrimas desciam dos olhos desesperados de Aline. Giovanni tentava acalma-la, se segurando para não rir, aquela cena era linda na sua cabeça.
Quando Aline estava perdendo as esperanças, Giovanni deu a ideia de refazer os paços dela naquela tarde na faculdade. Foram até um banco onde ela tinha se sentado, e Giovanni sem que a garota percebesse, tirou o celular do bolso, e fingindo procurar pelo chão, fingindo pegar algo apareceu com o celular. Aline ficou tão feliz que abraçou ao rapaz.
Giovanni sabia o que isso significava, era um momento de forte emoção, perfeito para beijar. Beijou. Aline aceitou o beijo. Pronto, todo o plano tinha dado certo. A única coisa que ele não havia previsto era que ia gostar tanto do beijo daquela garota e do calor de seu corpo junto ao dele.
Giovanni havia pegado uma das meninas mais difíceis da faculdade.

- Tu tens um dom, Giovanni!!!

Diziam os caras que o admiravam.
Depois de conquistar a garota foi fácil leva-la para a cama, foi só inicia-la na arte da bebida. E quão bêbada ela ficou.
O sexo foi surpreendente para Giovanni, sentiu coisas que nunca tinha sentido, de fato se percebeu apaixonado, pela primeira vez após sua transformação em um monstro.
Era aquela a sua alma gêmea? A garota que deus havia separado para ele? Podia em fim achar sua redenção como ser humano e se aquietar ao lado de alguém que lhe amava, envelhecer ao lado de alguém que se preocupava com ele, ter filhos e em fim morrer em paz.

 Giovanni levantou-se da cama. Virou para Aline e disse:
- Estou indo embora.
Ela perguntou assustada:
- Como assim?
- Eu já consegui o que eu queria, tu não é mais pura.
Giovanni riu e saiu do quarto coçando o saco, deixando a garota em prantos na cama.

Por alguns momentos ele ponderou se aquela atitude havia sido a certa, ele poderia enfim ter a paz que incialmente queria, mas no final sabia que Fausto sempre morrerá sozinho.
Nosso herói caiu no mundo atrás de uma nova vítima.
Eu não julgo Giovanni, ele tem seus motivos, e eu não julgo ele até porque... Bom... Eu sou ele. E é foda ser ele.

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Friedrich Nietzsche


terça-feira, 4 de novembro de 2014

O homem líquido

Eu sou líquido... Todos me questionam por que mudo tanto. Uma hora penso de um jeito; outra, já sou outra coisa. É bem verdade que, em algumas épocas, esses questionamentos faziam eu me sentir mal, então, eu quis saber quem eu era, até que um diz encontrei um velho. Enquanto conversávamos sobre isso, eu lhe dizia que todos me cobravam por mudar tanto. Ele simplesmente me olhou e, com toda a sabedoria e conhecimento, disse: "quer dizer, então, que na cabeça dessas pessoas, você, com a idade que tem, já deveria estar totalmente formado e não poderia mais mudar nada?" Olhei-o nos olhos e pensei: "porra, por que não pensei isso sozinho?" É bem verdade que eu não estava diante de qualquer velho, mas sim de um dos maiores psicanalistas lacanianos do país, e só depois de algum tempo fui perceber a profundidade do que ele falava. Acho que, de fato, esse era seu objetivo, fazer-me perceber sozinho depois. Certo dia conheci um sujeito que usava "Líquido" como um dos sobrenomes no facebook, e conversar pessoalmente com ele na faculdade era extremamente edificante para mim. Todas as perguntas filosóficas que eu o questionava, ele me lançava uma pergunta de volta, sempre questionando o oposto da resposta que eu achava que deveria ouvir. Quando eu era criança, um grande amigo dizia que só um idiota responde uma pergunta com outra pergunta, e era extremamente engraçado. Se eu afirmasse isso para o senhor Líquido, ele, possivelmente, devolveria a pergunta, do tipo : Por que pô? Tu não achas que alguém que não é idiota não pode responder uma pergunta com outra pergunta? E tu não achas que é bom ser idiota, em alguns casos? Usando o método socrático - tentar achar exceções para as coisas, certa vez, fez-me perceber duas coisas extremamente importantes: primeiro, que conceitos são relativos, o muito e pouco são relativos, eu posso dizer que vivo com muito, mas para alguém pode ser pouco, e a outra coisa foi: uma vez reclamei dizendo que em certas situações não conseguia ficar de braços cruzados e não fazer nada. Ele me devolveu novamente com uma pergunta: "mas tu não achas que só ficar de braços cruzados é fazer alguma coisa?". Era impressionante, ele conseguiu me ensinar que pelo máximo que tenhamos certeza de algo, esse algo pode não ser de fato como pensamos, é só uma forma de ver, como ele mesmo dizia, eu posso olhar para essa barulheira e, enquanto todos reclamam, eu posso ouvir música daí. Eu achava que conseguia entender Nietzsche, e ao aprender com esses homens, vi que não tinha entendido nada, eu via o que queria ver, e com isso deturpava o sentido que o autor queria passar, aproximava-me de um fascista, enquanto na verdade a intenção do que eu lia era me levar para a vida. A minha própria crítica ao dogmatismo dos religiosos recaía sobre mim agora. Perguntei uma vez para o senhor Líquido: quem és tu? Ele me disse que não sabia e que não havia resposta para essa pergunta, pelo menos não uma que ele soubesse. Todo mundo tem uma visão sobre si mesmo, define-se e acha que sabe quem é, por que motivo ele não me respondia? Eu sou um pouco disso, mas tenho isso aqui também, uns diriam, outros eu sou de Paulo, eu sou de Apolo , e outros não eu não sou crente, eu sou de Cristo, mas todos sempre se definem como algo fixo. A ideia de estabilidade, de forma está impregnada na vida das pessoas. O senhor Líquido não me disse quem era, ele sabia que os líquidos não possuem verdadeiramente forma, assumem a forma do recipiente que as contem, mas tire o recipiente e voltam a não ter forma. Comecei a ter aulas de filosofia com uma professora da faculdade. A origem da tragédia de Nietzsche. A princípio achei que era só um livro inútil, que como diria Fernando Pessoa, era só um dos livros cuja função era evitar espaços vazios na estante. Então, comecei a aprender sobre apolíneo e dionisíaco, e percebi que de fato não se entende o que vem depois se não se entende o que vem antes. O homem busca dar forma às coisas, por isso se torna infeliz porque não pode, de fato, dar forma a tudo, tem que haver caos, desordem, porque não se pode evitar. Costumo pensar que a ordem das coisas que todos buscam seja justamente a desordem. Conheci um filósofo da faculdade que me fez perceber que me sentia mal por mudar tanto porque acreditava que poderia ter um estado de ordem perfeita, onde eu não precisaria mais mudar, como diria Michel de Montaigne: " O homem não é tão atingido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece. " Olhe senhor Líquido, é tudo uma forma de ver. É preciso encarar o caos, e se sentir bem com isso, é isso que entendo por Dionisíaco. Você usa máscaras, fica tentando ser algo, mostrar que é, fica mudando, os outros não aceitam a não forma alheia, é ameaçador para eles, porque eles se definem por formas e batem no peito e dizem : " este sou eu, quem é você? Você tem que se definir". Enquanto escrevia isso, lembrei-me de um dos textos budistas escritos por Osho, que eu costumava ler, e ele dizia: "quando me perguntam quem eu sou, eu respondo: eu sou consciência, porque de fato não existe eu, e na verdade somos a mesma coisa... Quando se olha profundamente uma gota de água, pode-se ver o Oceano", depois de tudo que aprendi isso começa a fazer bastante sentido, apesar de espiritualista. Me sentia mal por não ser definido, hoje não sinto, percebo que não preciso de fato. Me sentia mal por me sentir mal, por ter dúvidas sobre as coisas, mas após muito ler achei em Montaigne, uma passagem que diz mais ou menos que não deveríamos nos sentir mal por nada que acontece conosco porque se aconteceu é porque poderia acontecer, então é humano. Ser líquido, caótico é no momento o que eu vejo ser o homem, pode ser que essa visão mude, mas no momento é isso. Não conheço frase melhor para terminar esse texto do que a frase: " onde você vê consciência, eu vejo apenas o que é humano, ah, demasiado humano".

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O deus do novo mundo

Eu fui hoje de tarde para universidade, para assistir uma aula sobre Nietzsche. Estava um clima bom. Eu havia acabado de ler um livro há poucas horas, se tratava de: "A morte de Ivan Ilitch" onde o genial Leon Tolstoi tratava sobre a inutilidade de muitas coisas na vida. Foi uma boa leitura, pude começar então a ler Laranja Mecânica na sequência. Cheguei, e encontrei um grande falso amigo dos tempos em que Dom-Dom jogava no Andaraí, conversamos e depois fui para a sala, onde descobri que não haveria aula. Peguei meu maldito busão e me dirigi para casa. Me sentei no ônibus, abri minha bolsa, peguei meu livro e fui ler Laranja mecânica novamente. Foi ai que sentou do meu lado uma mulher estranha, que carregava seu pequeno filho, ele devia ter uns 5 anos, não dei muita importância e continuei lendo sobre jovens que espancavam os outros. No meio da viagem a mãe do menino brigava muito com ele, toda hora reclamava, e ofendia a criança, me espantei quando ela chamou o filho de "merda". Aquilo me deixou perplexo e tentei ver o motivo daquela implicância. Identifiquei o problema: A mãe estava tentando mexer no seu celular para curtir e atualizar seu facebook, e colocava seu filho de qualquer jeito sobre as pernas, a posição estava desconfortável para ele, que se mexia tentando ficar de uma forma que não o machucasse, o que atrapalhava a mãe de mexer no celular. Não acreditei naquilo quando vi, e fiquei olhando para ter certeza que era aquilo mesmo, realmente era. Vi a hora que a mãe meteu suas unhas na carne do braço do filho para ele ficar quieto porque ela queria ler um status qualquer. O menino chorou, e ver as lágrimas descendo do rosto daquela criança me fez perceber que eu sentia naquele momento nojo do que a tecnologia fez com as pessoas e que eu sentia nojo daquela mãe. Percebi então o que havia acabado de acontecer, o que o senhor Michel Foucault chama de docilização do corpo do indivíduo, onde algum tipo de dor imposta por alguém mais forte faz com que o outro deixe de fazer algo. O que pensei? AQUELA CRIANÇA HAVIA ACABADO DE SER DOCILIZADA, PARA QUE NO FUTURO FICASSE EM UMA POSIÇÃO DE DESCONFORTO PERANTE OS OUTROS QUE DETINHAM PODER. Nem sempre o que nos ensinam é certo, como nos diz Mark Twain. Percebi que aquilo não estava correto, que não havia justiça nenhuma ali, o deus que aquela criança poderia acreditar no futuro não evitou aquilo. PODE SER QUE MANDE A PORRA DA MÃE DELA PRA MERDA DO INFERNO, mas isso seria no futuro, a justiça que o povo espera é no presente. Cabia ao anti-heroi de história fazer algo. Por que? Não porque senti pena, porque não sinto, acho que ninguém merece que se sinta pena desse alguém, apenas pelo simples fato de que se era um jogo de forças MINHA VONTADE DE POTÊNCIA PODERIA ANIQUILAR AQUELA SITUAÇÃO. Não podia ser algo comum, o deus do novo mundo era inteligente demais para saber que apenas chamar atenção daquela mulher não bastaria. Usei então de uma estratégia diferente, aprendi com o filósofo cínico Diógenes. CHOCAR É O MELHOR JEITO DE ENSINAR. Ia mostrar pra ela o peso de suas escolhas malditas. Na hora de descer no terminal, o ônibus estava muito cheio, e a mulher imbecil quis descer lendo seu face, no celular, fiquei na porta e na hora de descer ela se apoiou em mim. Me veio a ideia, e me joguei de lá de cima no asfalto, cai com o braço no chão, a mulher caiu do outro lado, ouvi um baque estranho, quando levantei a cabeça vi o celular dela todo lascado lá. Levantei e olhei para a criança imóvel, ela me olhou nos olhos, sei que no fundo ela sentia uma sensação de que a justiça tinha sido feita, senti algo descer pelo meu braço e escorrer pela minha mão, era o belo e vermelho sangue. Não me importei, que espécie de Cristo eu seria se não tivesse derramado meu sangue pelo meu povo? Eu fiz isso porque quis, não precisava ser adorado por isso... agi como julguei justo...Eu tenho o direito de me jogar no chão a hora que eu quiser... O DEUS DO NOVO MUNDO. A mulher levantou e já foi me ofendendo. Me chamou de vários nomes. Não sei de onde veio aquilo, mas em apenas um grito expondo toda minha raiva eu apenas disse: VAI TE FUDER !!! FILHA DA PUTA!!! A mulher ficou com medo e se calou, virei as costas e fui me embora andando. Enquanto andava lembrava da cara da criança, e sentia o sangue escorrendo e pingando do meu braço... deixando um leve rastro até minha casa... Não tem problema... Haverá sempre mais vinho para minha ceia...

terça-feira, 28 de outubro de 2014

As fênix

E lá estava eu novamente, acordando de um sonho ruim. Boca seca novamente, eu devo ter roncado a noite toda, dizem que isso pode dar complicação, que ronco é indicação de vários problemas, mas eu como um ser pensante nunca acredito nessas merdas do “Bem Estar”. Bom, eu podia ficar deitado o dia todo, podia levantar, podia morrer e não faria diferença para o mundo, a verdade é que ninguém ligava, nem eu mesmo, eu ficaria deitado se a porra dos meus progenitores não viessem me encher a paciência me chamando de vagabundo e outras coisas, no fundo eu não ligava, aprendi a fazer os outros pararem de me machucar, eu levantei por vontade própria, talvez ainda tivesse um resto daquele suco do dia anterior na geladeira, de fato tinha. Não deveria ter tomado, me fez mal depois, sempre são assim as coisas na vida não? Fazemos coisas que não devíamos e depois arcamos com as consequências não é? Não, não é, não existe justiça nas coisas meus irmãos, ninguém nos garantiu tal coisa, e que quer que prometa está mentindo. Faça o bem e terá o bem de volta? Eu era a prova de que isso era uma mentira, tanto que cansei de ser bom, estava num clima de “deixa a vida me levar”, fazia tempo que não ria, porém achava graça de tudo, tudo era engraçado, cômico. Ver os outros batalhando por futilidades, sofrendo por besteiras e nesse percurso tentando me puxar para eu ser um deles, um zumbi da pós-modernidade, um homem máquina, uma pilha pra alguém mais rico, eu não queria isso, não mais, estava cansado de tudo, cansado de tentar, cansado de nunca sair do lugar, cansado de nunca sair do lugar, e vivia assim, todos os ventos são favoráveis a quem não tem lugar algum pra ir não é? Bebo o suco mesmo sentindo o gosto amargo que indicava que provavelmente estava estragado, continuo bebendo, queria passar mal, sentir que estava fazendo mal a mim mesmo, sentir que fazia algo e ao mesmo tempo nada. Acabo de beber e olho meu reflexo no espelho da sala. Aquele que olha pra mim é um retrato do que me tornei, um retrato do que nunca fui, mas que aparento ser, todos usamos máscaras, acredito que no fundo todos sabem que usam máscaras, mas no fim nos acostumamos a fingir e deixamos a máscara lá até que esquecemos que estamos usando e ela, derretida se gruda a cara. Todos exigem que sejamos alguma coisa, todos tentam ser o que lhes é exigido, bons pais, bons filhos, bons esposos, bons chefes e empregados, bons cristãos. A única diferença entre mim e os outros é que eu tinha desistido de tentar, é impossível ser alguma coisa e mesmo que fosse, valeria a pena? Deixo o copo sujo sobre a mesa, mesmo sabendo que depois a progenitora irá reclamar dizendo coisas do tipo: “ esse cara não faz nada”, “ninguém aqui é teu empregado não”, “tá na hora de tu cair fora daqui já”, talvez realmente estivesse na hora de eu cair fora dali, mas por enquanto dava pra aguentar, no final tanto fazia, aguentar satanás ou jesus não fazia diferença nenhuma, um mente pra você caro amigo e diz que te ama e quer te salvar, mas se você não o ama de volta ele fode com sua vida, já o outro tá fudido e quer te levar junto, como uma onça ferida que sabe que vai morrer e mata tudo que vê pela frente só pra não morrer sozinha. Nesse ponto me identifico com o diabo, no ponto de ser vingativo me identifico o o santo cristo. Somos todos babacas. Caminho até a janela do segundo andar, e de lá olho para a rua, e fico imaginando até onde minha visão é capaz de ver, fico imaginando se alguém no mundo pensa como eu, apesar de duvidar muito, gostaria de conhecer tal pessoa, gostaria ainda mais se ela fosse uma mulher e de preferência bem gostosa, não direi nada sobre ser ruiva porque aí já seria exigir demais meus caros. Olho para a rua, passa uma criança vindo da escola, isso indica que deveriam ser por volta do meio dia. A criança ria e brincava, trazia numa mão uma bolça daquelas de carrinho, que eu sempre quis ter mas nunca me compraram, na outra segurava a mão do pai, que também trazia na cara um sorriso. A criança estava tão feliz que me espantou. Crianças são assim mesmo, tem espanto e perplexidade diante de tudo, e nelas esses sentimentos criam fascínio e assim felicidade, em mim era o oposto, mas confesso que gostava bastante do sentimento de perplexidade quando ele aparecia, de me sentir alheio as coisas, era estranho, ao mesmo tempo que gostava ele também me fazia me sentir um pouco mal. Continuo olhando para a rua esperando o tempo passar. Olha que gostosa é essa correndo na rua com roupa de academia! De repente todo o meu corpo me manda essa mensagem. Ah sim, é a Carlinha a vizinha do lado. Carlinha é? Carlona, isso sim. Porra quando essa menina ficou tão gostosa desse jeito? Lembro que outro dia mesmo éramos nós as crianças que brincavam naquela rua, correndo olhando a paisagem, espantados e perplexos com o mundo e as coisas, e de nossa perplexidade vinha nossa felicidade, curiosos com tudo, alheios a tudo, mas com uma imensa vontade de pertencer e esperança de um dia entender tudo e de fato pertencer. Carlinha tava com umas pernas lindas, mas o que tava fenomenal mesmo o conjunto, bunda boa e cinturinha fininha delícia. Nossa aquilo demais, deve ter sido muito difícil ficar daquele jeito, muita academia, muita dieta, muita força de vontade. Baboseira eu sabia o que era, pressão social, querer ser aceito pelos outros, eu sabia o que era aquele sentimento, ou pelo menos criei uma autocritica desse tipo para poder me sentir bem, e eu tinha consciência disso, até me divertia com isso, mas caros amigos, deixemos isso de lado e voltemos a falar sobre como a Carlinha tava gostosa, porra eu tinha um fetiche estranho por mulheres com cinturinha fina e bundas grandes, a psicologia diz que isso é por um condicionamento evolutivo. Baboseira, eu não acredito nessas coisas também. Tesão é tesão e não precisa de explicação, até rimou, eu costumo falar tentando rimar para parecer intelectual. Os peitos não eram grandes, nem pequenos, tamanho bom, não era grandes o suficiente pra uma boa espanhola ou meter a cara e fazer uma bela de uma “lancha” e nem pequenos para serem deixados de lado. Parece que a Carlinha cursa Direito na faculdade, não sei ao certo onde, nem porque, ela parou de falar comigo faz um tempinho, desde que minha progenitora começou a ficar conversando sobre mim com a puta da mãe dela, me queimando, dizendo como sou um péssimo filho, um vagabundo e essas coisas, acho que ela deve ter ficado com uma péssima impressão de mim, devia me ver como algum bêbado vagabundo, possivelmente drogado, que gasta o dinheiro dos pais e não faz nada de bom. Bom caros amigos tirando a parte do drogado, não posso negar que ela esteja certa. Não tem problema que ela me odiasse, pois eu também me odiava. Mas voltando ao que interessa, aquela cinturinha e aquela bunda mereciam ser homenageadas, passo pelo banheiro, pego o rolo de papel higiênico e me dirijo para os meus aposentos, lá onde rola a magia, minha arte, lá onde desperdiço minha vida. Sabe aquela sensação de depois de uma bronha. Exato aquela que você deve ser doente por imaginar as coisas que imagina, a sensação de que você é um bosta, que gostaria deparar com aquilo mas já não pode mais, já é tarde demais, você é um viciado. Pois é, essa é a sensação que tenho a todos os momentos da minha vida, tanto que já a tenho como natural, normal. Desço as escadas vou até o micro-ondas e lá estava o meu almoço, a progenitora deixou. Tava uma merda, comi quase chorando e ao mesmo tempo com um riso interior de sarcasmo tão foda, aquele almoço era como uma mensagem de: “ninguém te quer por aqui, porque tu não se toca e vai embora?”. Eu como e deixo o prato lá em cima da mesa junto com o copo sujo do desjejum, que estava cheio de formigas. A cintura da Carlinha, porra, apenas uma bronha era uma ofensa pra aquela bunda, ela merecia muitas mais, não tinha problema, eu tinha a tarde toda livre, eu tinha a vida toda livre. Devo ter dormido depois de mais umas duas. Acordo e já está escuro, vou até o banheiro para tomar um banho, porém antes mais uma homenagem a grande Carlinha. Banho me arrumo e saio de casa, no final da rua encontro com a progenitora, que vinha do trabalho, ela começa fazer escândalo: “ vagabundo, tu já vai beber? Tu não presta mesmo...”, continuo caminhando como se não fosse comigo, só me vêm um pensamento: “cala a boca ,velha!”, mas eu nada digo, aprendi a ignorar. Vou para a casa do Glauco lhe convidar para ir até o boteco beber alguma coisa, eu sei que ele não bebe, mas convido só de pirraça, ele tá nessa onda de budismo, mas sei que ele me acompanhará até lá, se sentará na mesa comigo e me escutará reclamar da vida. E assim ele faz, Glauco meu fiel amigo, o mais perto disso que tenho, todos me abandonaram, me mostraram que não era bom ser iludido em relação a nenhum tipo de relacionamento com ninguém. Eu bebo enquanto conversamos, ele me olha com aquele sorriso estranho na cara, como quem está impressionado com as besteiras que eu falo, e depois dá pontos de vistas vagos sobre as coisas. Me fala sobre como o sofrimento é algo que escolhemos ver, me fala sobre como podemos ter serenidade diante das coisas. Não seio porquê, mas uma lágrima pequena me desce o olho esquerdo, mas a seco rápido para que ninguém perceba, acho que deveria estar guardada ali por muito tempo, então eu não consegui mais guardá-la. A bunda e a cinturinha de Carlinha. Pronto a lágrima secou e eu estava bem de novo. Continuo conversando com Glauco, caros amigos, e bebendo, até eu a hora avança bastante e o boteco fica quase vazio. Ele me ajuda a me levantar e me ajuda até que eu chego em casa, e depois some na escuridão da noite, bom sujeito esse cara. Entro na casa dos progenitores, não ouse dizer na minha casa, porque eles deixam bem explicito que sou alheio a aquele lugar e que estou ali como agregado. Vou para a cama e lá deitado, no sufoco do desespero, sem conseguir dormir, lembro do meu anjo da guarda, ou melhor, os meus anjos, a cintura e bunda de Carlinha, que tipo de cara eu seria se não prestasse uma homenagem antes de dormir? Acordo tarde no dia seguinte, e dessa vez não acordo por vontade própria, a progenitora vem me acordar desesperada, trago a cabeça pesada da ressaca. Ela diz que a Carlinha está muito mal, que sua mãe não sabia, mas que para manter o corpo malhado a Carlinha estava sofrendo de anorexia, e que agora ela estava no hospital porque desmaiou de fraqueza. Como? Ontem mesmo ela tava na academia, e parecia tão boa, ou melhor, era tão boa. Anorexia, o problema de parar de comer pra manter as aparências de magra. Quer dizer então que aquela cinturinha fina e aquela bunda fenomenal era frutos disso também? É, nem deus podia dizer que não valia a pena o sacrifício. A progenitora queria que eu fosse até o hospital ver como a vizinha estava, e que levasse flores e desejasse melhoras para a família, disse que não ia ela mesma por que tinha um compromisso muito importante com o chefe e não podia faltar. Me entrega o dinheiro para comprar flores, 50 reais, só para flores? Tudo bem. Me entrega o dinheiro e sai com cara de preocupada. Tudo bem, eu embolso o dinheiro, me visto e me dirijo para o hospital. Não caros amigos, obviamente eu não levei flores. Fui só cumprir as formalidades e dar uma secada naquela bunda e naquela cinturinha. Ela estava no leito 309. Me dirijo até lá. Bato na porta e escuto uma voz fina dizendo que posso entrar. Abro a porta e lá estava ela, a gostosa, deitada numa cama, num quarto só dela, num desses hospitais de rico. Pareceu surpresa ao me ver, espantada como se eu fosse a última pessoa que ela esperava ver ali, como se nem lembrasse da minha existência e de repente eu apareço ali. Ela está sendo muito gentil comigo, nada como uma experiência de quase morte pra uma vadia te tratar bem. Me convida para sentar. Pego uma cadeira coloco perto da cama e começamos a conversar. Pra ser sincero eu mais ouvia do que falava. Ela falava sobre porque estava sem se alimentar direito, que queria ter corpo de jeito tal, parecido com não sei quem, mas que ia pegar mais leve. Enquanto ela falava, eu só pensava em coisas como consumismo babaca, gente sendo fútil e naquela cinturinha e bundinha, queria fazer sexo com aquela cintura, e sim caros amigos, isso é possível, é possível fazer sexo com qualquer coisa, é só ficar se esfregando, pra isso só é preciso vontade e uma mente tida como “doentia” e fetichista. Carlinha continuava falando, eu já nem ouvia mais, blá blá blá. Ai ela parou de falar olhou pra mim agradeceu por eu ter vindo, deu um sorriso muito simpático e disse que ela era como uma fênix, que pode sair das situações só nas cinzas, mas que renascia e ficava mais forte. Eu finalmente esbocei um sorriso nessa hora, num misto de correspondência ao sorriso simpático dela, com os pensamentos doentios sexuais que passavam pela minha cabeça e com as merdas que ela tava falando, que ridículo. Me despeço, dou-lhe um beijo na testa e saio do hospital. Carlinha a fênix anoréxica, a fênix que se deixa manipular por um clamor social pelo corpo perfeito, a fênix que é só mais uma, ridícula como todas as outras, uma idiota, cópia dos outros, tentando ser o que os outros mandam que ela seja. Uma fênix? Nunca foi nem nunca será. Sair mais forte das coisas é uma ilusão dos imbecis, eles não são fortes. Eu sim sou. Quer saber o que é verdadeiramente a fênix? Uma churrascaria que tem lá perto do hospital. “Churrascaria fênix” um bom nome para que trabalha com fogo, muito bem pensado, essa sim é uma verdadeira fênix, e é pra lá que eu vou, tenho o direito de ir e posso ir, posso sim ir agora que tenho os 50 reais embolsados que deveriam ter sido usados para comprar flores pra aquela falsa fênix, e que agora serão gastas numa verdadeira.

sábado, 27 de setembro de 2014

Vai morrer – a crônica de uma sociedade doente

-Vai morrer!!! Éramos eu, ou seja, um sujeito do pós-modernismo e meus dois ”druguis”: Roberto e uma menina cujo nome eu não me lembro, pois eu a conheci naquela hora. Mas por que chamar uma pessoa que acabara de conhecer e mal sabia o nome de “drugui” ( ou amigo em nadsat) ? Não é essa uma das características do “mundo moderno”? Parafraseando novamente Laranja Mecânica. Bom, voltando à história. Terminal da Praia Grande, esperando o ônibus para ir para um grupo de estudo de filosofia. Conversando sobre Deleuze com o Roberto quando, de repente, vimos um velho sair gritando. -Desgraçado! Eu sabia que tu não ia me esperar. Vou te pegar na próxima e destruir teu carro! Ele estava praguejando contra o motorista de um ônibus que havia saído e não o tinha oesperado. -Deve ser um bêbado ou louco! Pensei, tentando sair de perto. A minha atitude foi repetida por todos que estavam também por perto, porque também tiveram a mesma impressão minha. Se fosse bêbado ou louco, seria só mais um, mas não era nada disso, era um homem velho, negro, mal vestido, mas que trazia seu material de trabalho, um carro de mão com algumas coisas dentro. Continuei observando e percebi que ele praguejava porque estava colocando suas coisas dentro do ônibus e o motorista saiu sem o esperar, levando algumas de suas coisas. O velho correu até uns guardas-civis que estavam também dentro do terminal, e foi contar sua história. O clima ficou um pouco tenso entre os outros passageiros que estavam assistindo à cena. Acabou que não deu em nada com a polícia e ele voltou reclamando para os outros passageiros: -Isso é uma falta de respeito. O brasileiro se cala. A gente não pode se calar! E o velho continuou a reclamar em voz alta. Ele falava para os outros como se desse uma justificativa social para seus atos. Já estava indo embora quando um menino que vendia salgados numa plataforma que estava nas costas do velho gritou: - VAI MORRER! O velho, que estava de costas e empurrava seu carro de mão para outra plataforma, parou no meio da rua, virou-se e perguntou: - quem disse isso? Ninguém disse nada e o velho passou pelo garoto e foi tomar satisfação com um homem qualquer que estava por lá. Foi como se quisesse se mostrar valente; o outro homem ficou chamando o velho de louco. O velho revoltado e um pouco feliz por ter a atenção de todos foi e colocou seu carro de mão no meio da rua, entre duas plataformas, de modo que impediria os ônibus de passar livremente. Aquilo pareceu uma forma de protesto, como se fosse um grito: “TODO MUNDO SE ACHA NO DIREITO DE PROTESTAR POR TUDO HOJE EM DIA. PROFESSORES QUE NEM VÃO ÀS ESCOLAS, FECHANDO AVENIDAS. MÉDICOS RICOS FAZENDO PASSEATAS POR MELHORES SALÁRIOS. ENTÃO, EU TENHO DIREITO DE PROTESTAR AQUI DENTRO DESSE TERMINAL.” E o velho parecia orgulhoso de seus atos, ele tinha a atenção de todos, conseguiu até a atenção dos policiais que não o ajudaram quando ele pediu. Chegaram e mandaram que ele tirasse aquela merda de carro de mão do meio da rua e toda a bravura do velho se dissolveu em medo diante da figura do policial. Os policiais começaram a falar, até que um deles foi ao carrinho de mão do velho e começou a mexer nele, tirou de lá de dentro um facão. Foi aí que liguei os fatos e percebi que o velho era jardineiro. Isso explicava o carrinho de mão, as roupas sujas, o jeito grosseiro e até o facão. Mas parece que isso não importava para os policiais, eles imobilizaram o velho à força. Ao meu ver, sem necessidade e levaram o velho para uma sala onde, creio eu, “ensinaram uma lição para ele”, porque um deles ficou fazendo guarda na porta e eles estavam todos com cacetete na mão. Enquanto os policiais levavam o velho, o garoto dos salgados gritou novamente: - VAI MORRER!!! E o velho foi levado e ninguém disse nada. E pensar que tudo isso teria sido evitado se o motorista tivesse esperado, ou se o garoto “sátiro” não tivesse gritado: “vai morrer” para o velho. Como o mundo está, não? Eu próprio não disse nada, apesar disso tudo ter me deixado perplexo. Mas eu estou na massa da pós-modernidade. Como diria Deleuze : “Jamais interprete, experimente”. Mas o que isso tem a ver com a história? Não sei, eu apenas queria falar Deleuz, porque acho um nome lega., Eu nem se quer li Deleuze. Na verdade, para citar tal frase eu apenas botei no google: “Deleuze frases” e aí achei essa engraçada e quis botar, não é essa uma das maiores características da sociedade atual? Isto é, a facilidade de se obter informações desconexas? Meu próprio jeito de escrever, sem seguir regras é um retrato do momento que o mundo está vivendo, uma falta de estilo formal, assim como Saramago fazia ao não utilizar certas pontuações. Minha própria forma de justificar dando exemplos de pessoas ilustres, usando assim argumentos de autoridade, é o que é exigido em nível acadêmico hoje em dia, não se pautando em fundamentação com conteúdo de por que fazer, mas de que faço porque assim é feito. Está é a cara da pós-modernidade. Por vezes fico preocupado com os rumos que a sociedade vem tomando porque creio que se continuar assim ela... VAI MORRER.

domingo, 14 de setembro de 2014

Caramelo Macciato

Tinha 18 anos, era uma jovem rapariga. Morena, lindos olhos, nariz estranho, boca com uma expressão de nojo que dava um leve charme de superioridade. Chorava naquele momento, estava a relembrar o momento mais difícil da curta vida. Na época em que tudo ocorreu, tinha 15 anos, era mais jovem ainda. As lágrimas desciam os olhos como torneiras da casa de pobres, gotejando pontualmente a cada três segundos, era tão mecânico que parecia ser falso. Eu diria isso se não fosse insensível demais de minha parte, tais palavras nunca poderiam sair de minha boca, eu era politicamente correto demais para poder ao menos pronunciar tal sentença, então guardava só pra mim, no meu íntimo. Ela chorava, enquanto isso eu fingia anotar coisas no meu caderno de anotações, mas na verdade eu jogava jogo da velha contra mim mesmo. Foi ai que ela conseguiu prender minha atenção. Falou: “ eu não aguento mais isso, minha vida foi destruída a 3 anos, e pelo meu próprio pai”. E ai começou a contar um dos mais tristes relatos que ouvi na vida. Teria sido mais uma seção chata com um paciente chato se aquilo não tivesse acontecido. Aquela pobre garota havia sido violentada. Filha de pais separados, por muito tempo ela morou com o pai, até então tudo normal, várias pessoas passam por isso. Tudo mudou numa noite, quando o pai voltou tarde pra casa, ele fedia a álcool, ele mandava palavrões. A pobre garota ficou com muito medo, escondeu-se embaixo dos cobertores, como se aquilo fosse um belo esconderijo, como se aquilo fosse um mundo paralelo onde nada pudesse lhe fazer mais mal. A porta do seu quarto abriu. “Filhinhaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Acordaaaaaaaaaaaaa papai quer falar contigo”. A garota se derramava em lágrimas nessa hora, estiquei o braço para um móvel e mesmo sentado consegui pegar uma caixa com lenços de papel, entreguei-os para que ela pudesse pegar um, ela tomou a caixa de minha mão, como se aquilo fosse algo muito precioso, como se aquilo pudesse apagar a dor dela, eram só papeis. Papeis cumprindo papeis que nunca cumpririam de fato. O pai a pegou pelo braço, ela tentou fugir, foi acertada com um bofete no rosto, cuspiu sangue, começou a chorar, não adiantou de nada. Ela mudou a tonalidade de voz com que falava nessa hora, as lágrimas continuavam a descer, mas agora trazia o rosto vermelho com uma expressão de ódio. Falava com tamanho ódio que me assustou. Ainda era virgem, seu pai foi seu primeiro homem, forçadamente foi o seu primeiro homem. Eu não dizia nada, apenas assistia a aquele relato espantoso. Como podia aquela jovem odiar tanto seu pai? Como podia um pai ter feito aquilo com sua filha? Ela continuou o relato. “ O que mais me deu ódio foi a cara que ele fazia, trazia um sorriso, um sorriso doentio, de quem sabe que está machucando os outros e mesmo assim continua”. O choro se tornou compulsivo depois dessa frase. Perguntei se ela gostaria de um pouco de água. Respondeu que sim. Entreguei-lhe um copo com água gelada, que ela segurou com as duas mãos. Parou de falar, olhou para baixo e a partir desse momento não mais me olhou na cara. Continuou a história. Naquela mesma noite fugiu de casa. Foi morar na pobre casa da mãe. Contou tudo para a família, mas nada eles fizeram. Não era novidade para eles aquelas atitudes do pai. A mãe era violentada e espancada várias vezes, até que decidiu se separar. O que a pobre garotinha não percebeu e nem eu me atrevi a dizer foi que todos os abandonaram como cordeiro para abate do lobo mal. Será que ela não percebeu que se todos sabiam o caráter daquele homem, deixar uma garota de 15 anos sozinha com ele não poderia ser arriscado? A verdade, eu sabia, ninguém ligava pra ela, nem a própria vagabunda da mãe, ela nunca ouviria isso da minha boca, meu papel era fazê-la se sentir melhor, não dizer-lhe a verdade. A partir daqui parei de prestar muita atenção, fiquei pensando o lance da ovelha para o abate, entregada pelos seus próprios donos. Acabou-se então o horário da moça, ela se recompôs, agradeceu, pagou e marcou um horário para a semana seguinte. Agradeci e a acompanhei até a porta. Era a última paciente da noite. Peguei meu carro. Fui para casa. Subi os degraus da entrada cantarolando “singing in the rain”, tinha sido até um dia interessante. Fui até a cozinha preparar algo para comer, preparei um belo jantar e comi enquanto assistia a novela das 9. Por que as pessoas nunca percebem quem é o vilão? Essas novelas são tão previsíveis, a vida era tão previsível. Percebi, ou melhor: “me dei conta”, de que eu não parava de pensar na história daquela menina, subi as escadas até o meu quarto, tirei a roupa, fui até o banheiro, sentei nu no vaso e fiz o auge da minha noite: “ uma bela punheta pensando naquela história”, enquanto me masturbava imaginava a cara de doente que o pai da moça deve ter feito e ao me olhar no espelho da pia percebi que eu também estava fazendo uma. Na verdade foi por isso que escolhi essa profissão, ouvir a dor alheia, que prazeroso. Uma coisa aquela moça tinha razão certas pessoas sentem-se bem com a dor alheia, é algo mágico. Acabei minha arte, lavei minhas mãos e desci novamente as escadas para a cozinha, onde para terminar a noite com chave de ouro, preparei um delicioso Caramelo Macciato para tomar antes de ter uma boa noite de sono.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Stalker

E então? O que você faria? O que você faria se a garota dos seus sonhos estivesse diante dos seus olhos? Antigamente eu faria, mas hoje em dia não faço mais nada.
“Limpe as mãos após usar o banheiro”. É o que está escrito na parede. Isso aqui é um hospital, será que quem está aqui dentro não tem consciência de que deveria fazer isso? Será que é preciso que se diga isso toda vez os outros façam? Às vezes eu esqueço realmente que deveria lavar a mão, prefiro estar consciente de que deveria e assim não fazer, é uma das minhas formas de protesto contra a sociedade. Nunca lavar as mãos. O faxineiro que não lava as mãos, que aperta a mão de médicos (quando estes cumprimentam e estendem a mão, como se fossemos importantes, como se ligassem para nossa existência ali, como se realmente reconhecessem nosso papel ali) com elas sujas, após um dia de trabalho ou após usar o banheiro.
Trabalho o dia inteiro e depois pego meus 3 ônibus para chegar em casa. É frustrante tal vida, porém não existe outra forma. Uns nascem para ser médicos, outros para serem faxineiros, uns nascem para serem ricos e gastar o suficiente para sustentar três famílias, em apenas uma tarde no shopping e outros nascem para vender roupas para esses ricos.
3 ônibus. Cada ônibus leva em média meia hora para fazer seu percurso. Uma hora e meia para ir para o trabalho, uma hora e meia para voltar para casa. Três horas. Mais doze horas de serviços. Quinze horas. Eu preciso dormir seis horas. São vinte e uma horas, me sobrando assim três horas para fazer coisas pra mim, mas eu acabo não fazendo quase nada. Nessas três horas que me restam eu navego no computador, no facebook atrás de entretenimento, atrás de uma mulher, atrás de algo que me faça esquecer os problemas. É por lá que eu vistorio a vida de todos com que trabalho. Sei quem são, o que gostam, onde vão, mesmo que nem saibam quem sou eu. Comecei a fazer isso por causa da Liana. Uma médica do hospital. Na época era recém chegada.  Branquinha, magrinha, fragilzinha, totalmente delicada como os anjos devem ser, nariz afilado, cílios compridos dando a ela um charme digno de Cleópatra, e o sorriso? Nossa, e que sorriso, era capaz de transformar um dia péssimo em algo bom só com aquele sorriso. Liana, a médica recém formada. Como poderia haver algo tão lindo nesse mundo? Como poderia deus permitia que num mundo de pecadores, um ser tão perfeito pudesse habitar? A sua beleza me fazia chorar, me deu esperança, mas esperança de que eu não sei. Eu era um simples faxineiro e ela uma doutora, em que mundo daríamos certo? Em que mundo ela me daria bola? Mas eu tinha esperança, a esperança é a última que morre, morre até depois da dignidade, dignidade essa que nunca tive, eu catava lixo de um povo que eu odiava e ainda tinha que rir para eles.
Anjos tem nome? Aquele em especifico tinha, se chamava Liana, mas de início eu não sabia, tinha que descobrir. Porém um faxineiro não poderia chegar do nada numa médica e perguntar seu nome, eu tinha meu lugar, catando lixo. Poderia dar um jeito de descobrir o nome do anjo que iluminava aquele lugar. Não podia perguntar para alguém, porque ali eu era ninguém, ali e todo o mundo, para que um faxineiro iria querer saber aquela informação? Eu podia tentar limpar a sala dela e assim descobrir, foi o melhor plano que tive, seria isso.
Lembro do dia, entrei em sua sala, ela estava lá sentada na sua escrivaninha, levantou os olhos para me ver, riu para mim, meus joelhos tremeram e eu fiquei petrificado na porta, ela disse: “pode entrar”. Me movi, a sala cheirava a seu perfume de alfazema. “Com licença doutora”.
Fui juntando os lixos, até que cheguei no que ficava aos seus pés abaixo da mesa, baixei para pegar e nesse momento contemplei as pernas de um anjo, lisas, saiam por baixo da longa saia preta, fui tentado a tocar, mas o meu medo me controlou e me tirou do transe hipnótico que estava. Coloquei todo o lixo no saco e então saí da sala. Corri para a dispensa de materiais de limpeza, como uma criança que corre no dia de natal que corre para a árvore para ver que presentes ganhou. Despejei o lixo no chão, e comecei a procurar por algo e entre o meio dos papéis, lá estava, Dr. Liana Villar. Esperei até a hora de chegar acabar o trabalho. Mais uma hora e meia nos ônibus e eu estava em casa. Liguei o computador e pude procurar Liana no facebook.
Lá estava, loira e divina. Eu não poderia adicioná-la. Não, mas poderia ver o que ela gostava, quem ela era. Gustavo Lima? Ela gostava. A culpa é das estrelas, essas coisas. Mas sua beleza fazia todas essas coisas idiotas parecerem nada.
Não dormi nesse dia, extasiado pela felicidade, olhei minunciosamente todas as suas fotos.
Todo dia passou a ser a mesma coisa, estava sempre por perto dela, mesmo que ela não me notasse, mas quando notava, sempre sorria para mim.
Um dia, quando cheguei em casa, havia algo que a muito tempo não acontecia.
Uma solicitação de amizade. Alguém sabia quem eu era e queria ser meu amigo no facebook. Pode parecer pouco e que não era motivo para ficar feliz, mas estamos falando de mim, então é grande coisa.
Era ela, Doutora Liana Villar. Quase cai para trás na cadeira. Foi tanta emoção que meu coração queria gritar.
Eu mal podia acreditar. Imaginei mil coisas no momento. Me vi casado com ela, com filhos, caminhando de mãos dadas pelas areias da Copacabana.
Não pude dormir esse dia também.
No dia seguinte, fiquei rindo para ela e ela ria pra mim. Julguei que era cedo demais para trocar palavras.
Passei então a defende-la de médicos espertos que queriam se aproveitar de sua inocência e bom coração. Nesses hospitais os “médicos estrelas” acham que podem ter a mulher que quiserem, mas eu sempre estava por perto e sempre dava um jeito de interromper um flerte que algum desses lançasse sobre a minha Liana, fosse derrubando algo ou chamando o médico para ir para uma emergência que nem se quer existia.
Após algumas semanas trocamos palavras no corredor. “Boa tarde Doutora”. “Boa tarde”.   E ai vinha aquele lindo sorriso que ela sempre dava.
Naquela noite havia uma curtida na minha foto de perfil. A primeira curtida que recebi em uma foto minha. Era de Liana. Agora sim eu tinha muitas esperanças.
Decidi que a chamaria para tomar algo qualquer dia.
“Bom dia doutora Liana... É que eu acho a senhora muito linda e tenho muita admiração pela senhora e gostaria de saber se a senhora não gostaria de ir tomar algo qualquer dia comigo”.
Ela arregalou os olhos e disse: “Eu sinto muito, mas nós nem nos conhecemos, além disso eu tenho compromisso e nós fazemos parte de universos tão diferentes, desculpe, eu realmente sinto muito”.
Sente muito? Me deu vontade de chorar de vergonha. Ela virou as costas e foi embora. As palavras ecoavam na minha cabeça: “fazemos parte de universos tão diferentes”, “sinto muito”.
Olhei para trás e lá estavam outros faxineiros morrendo de rir. Um deles perguntou: “o que foi? Ela não aceitou sair com você? Ahahahaha. Depois de te adicionar no facebook e curtir sua foto ela deveria ao menos aceitar ir tomar um café contigo não é?” e todos caíram no riso. Como fui tão ingênuo? Como não percebi que deveria ser armação? Os outros faxineiros criaram um fake e me enganaram, porque fizeram isso? Acho que sair da monotonia diminuindo um idiota que sonhava.
Em que mundo eu poderia ter alguma chance? Nunca deveria ter tido esperança, ela me cegou.
Uns nascem para serem humilhados, servir de palhaço pros outros, limpar a sujeira dos outros e outros, nascem para não lavar as mãos depois de usar o banheiro.