quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O deus do novo mundo

Eu fui hoje de tarde para universidade, para assistir uma aula sobre Nietzsche. Estava um clima bom. Eu havia acabado de ler um livro há poucas horas, se tratava de: "A morte de Ivan Ilitch" onde o genial Leon Tolstoi tratava sobre a inutilidade de muitas coisas na vida. Foi uma boa leitura, pude começar então a ler Laranja Mecânica na sequência. Cheguei, e encontrei um grande falso amigo dos tempos em que Dom-Dom jogava no Andaraí, conversamos e depois fui para a sala, onde descobri que não haveria aula. Peguei meu maldito busão e me dirigi para casa. Me sentei no ônibus, abri minha bolsa, peguei meu livro e fui ler Laranja mecânica novamente. Foi ai que sentou do meu lado uma mulher estranha, que carregava seu pequeno filho, ele devia ter uns 5 anos, não dei muita importância e continuei lendo sobre jovens que espancavam os outros. No meio da viagem a mãe do menino brigava muito com ele, toda hora reclamava, e ofendia a criança, me espantei quando ela chamou o filho de "merda". Aquilo me deixou perplexo e tentei ver o motivo daquela implicância. Identifiquei o problema: A mãe estava tentando mexer no seu celular para curtir e atualizar seu facebook, e colocava seu filho de qualquer jeito sobre as pernas, a posição estava desconfortável para ele, que se mexia tentando ficar de uma forma que não o machucasse, o que atrapalhava a mãe de mexer no celular. Não acreditei naquilo quando vi, e fiquei olhando para ter certeza que era aquilo mesmo, realmente era. Vi a hora que a mãe meteu suas unhas na carne do braço do filho para ele ficar quieto porque ela queria ler um status qualquer. O menino chorou, e ver as lágrimas descendo do rosto daquela criança me fez perceber que eu sentia naquele momento nojo do que a tecnologia fez com as pessoas e que eu sentia nojo daquela mãe. Percebi então o que havia acabado de acontecer, o que o senhor Michel Foucault chama de docilização do corpo do indivíduo, onde algum tipo de dor imposta por alguém mais forte faz com que o outro deixe de fazer algo. O que pensei? AQUELA CRIANÇA HAVIA ACABADO DE SER DOCILIZADA, PARA QUE NO FUTURO FICASSE EM UMA POSIÇÃO DE DESCONFORTO PERANTE OS OUTROS QUE DETINHAM PODER. Nem sempre o que nos ensinam é certo, como nos diz Mark Twain. Percebi que aquilo não estava correto, que não havia justiça nenhuma ali, o deus que aquela criança poderia acreditar no futuro não evitou aquilo. PODE SER QUE MANDE A PORRA DA MÃE DELA PRA MERDA DO INFERNO, mas isso seria no futuro, a justiça que o povo espera é no presente. Cabia ao anti-heroi de história fazer algo. Por que? Não porque senti pena, porque não sinto, acho que ninguém merece que se sinta pena desse alguém, apenas pelo simples fato de que se era um jogo de forças MINHA VONTADE DE POTÊNCIA PODERIA ANIQUILAR AQUELA SITUAÇÃO. Não podia ser algo comum, o deus do novo mundo era inteligente demais para saber que apenas chamar atenção daquela mulher não bastaria. Usei então de uma estratégia diferente, aprendi com o filósofo cínico Diógenes. CHOCAR É O MELHOR JEITO DE ENSINAR. Ia mostrar pra ela o peso de suas escolhas malditas. Na hora de descer no terminal, o ônibus estava muito cheio, e a mulher imbecil quis descer lendo seu face, no celular, fiquei na porta e na hora de descer ela se apoiou em mim. Me veio a ideia, e me joguei de lá de cima no asfalto, cai com o braço no chão, a mulher caiu do outro lado, ouvi um baque estranho, quando levantei a cabeça vi o celular dela todo lascado lá. Levantei e olhei para a criança imóvel, ela me olhou nos olhos, sei que no fundo ela sentia uma sensação de que a justiça tinha sido feita, senti algo descer pelo meu braço e escorrer pela minha mão, era o belo e vermelho sangue. Não me importei, que espécie de Cristo eu seria se não tivesse derramado meu sangue pelo meu povo? Eu fiz isso porque quis, não precisava ser adorado por isso... agi como julguei justo...Eu tenho o direito de me jogar no chão a hora que eu quiser... O DEUS DO NOVO MUNDO. A mulher levantou e já foi me ofendendo. Me chamou de vários nomes. Não sei de onde veio aquilo, mas em apenas um grito expondo toda minha raiva eu apenas disse: VAI TE FUDER !!! FILHA DA PUTA!!! A mulher ficou com medo e se calou, virei as costas e fui me embora andando. Enquanto andava lembrava da cara da criança, e sentia o sangue escorrendo e pingando do meu braço... deixando um leve rastro até minha casa... Não tem problema... Haverá sempre mais vinho para minha ceia...

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