terça-feira, 4 de novembro de 2014

O homem líquido

Eu sou líquido... Todos me questionam por que mudo tanto. Uma hora penso de um jeito; outra, já sou outra coisa. É bem verdade que, em algumas épocas, esses questionamentos faziam eu me sentir mal, então, eu quis saber quem eu era, até que um diz encontrei um velho. Enquanto conversávamos sobre isso, eu lhe dizia que todos me cobravam por mudar tanto. Ele simplesmente me olhou e, com toda a sabedoria e conhecimento, disse: "quer dizer, então, que na cabeça dessas pessoas, você, com a idade que tem, já deveria estar totalmente formado e não poderia mais mudar nada?" Olhei-o nos olhos e pensei: "porra, por que não pensei isso sozinho?" É bem verdade que eu não estava diante de qualquer velho, mas sim de um dos maiores psicanalistas lacanianos do país, e só depois de algum tempo fui perceber a profundidade do que ele falava. Acho que, de fato, esse era seu objetivo, fazer-me perceber sozinho depois. Certo dia conheci um sujeito que usava "Líquido" como um dos sobrenomes no facebook, e conversar pessoalmente com ele na faculdade era extremamente edificante para mim. Todas as perguntas filosóficas que eu o questionava, ele me lançava uma pergunta de volta, sempre questionando o oposto da resposta que eu achava que deveria ouvir. Quando eu era criança, um grande amigo dizia que só um idiota responde uma pergunta com outra pergunta, e era extremamente engraçado. Se eu afirmasse isso para o senhor Líquido, ele, possivelmente, devolveria a pergunta, do tipo : Por que pô? Tu não achas que alguém que não é idiota não pode responder uma pergunta com outra pergunta? E tu não achas que é bom ser idiota, em alguns casos? Usando o método socrático - tentar achar exceções para as coisas, certa vez, fez-me perceber duas coisas extremamente importantes: primeiro, que conceitos são relativos, o muito e pouco são relativos, eu posso dizer que vivo com muito, mas para alguém pode ser pouco, e a outra coisa foi: uma vez reclamei dizendo que em certas situações não conseguia ficar de braços cruzados e não fazer nada. Ele me devolveu novamente com uma pergunta: "mas tu não achas que só ficar de braços cruzados é fazer alguma coisa?". Era impressionante, ele conseguiu me ensinar que pelo máximo que tenhamos certeza de algo, esse algo pode não ser de fato como pensamos, é só uma forma de ver, como ele mesmo dizia, eu posso olhar para essa barulheira e, enquanto todos reclamam, eu posso ouvir música daí. Eu achava que conseguia entender Nietzsche, e ao aprender com esses homens, vi que não tinha entendido nada, eu via o que queria ver, e com isso deturpava o sentido que o autor queria passar, aproximava-me de um fascista, enquanto na verdade a intenção do que eu lia era me levar para a vida. A minha própria crítica ao dogmatismo dos religiosos recaía sobre mim agora. Perguntei uma vez para o senhor Líquido: quem és tu? Ele me disse que não sabia e que não havia resposta para essa pergunta, pelo menos não uma que ele soubesse. Todo mundo tem uma visão sobre si mesmo, define-se e acha que sabe quem é, por que motivo ele não me respondia? Eu sou um pouco disso, mas tenho isso aqui também, uns diriam, outros eu sou de Paulo, eu sou de Apolo , e outros não eu não sou crente, eu sou de Cristo, mas todos sempre se definem como algo fixo. A ideia de estabilidade, de forma está impregnada na vida das pessoas. O senhor Líquido não me disse quem era, ele sabia que os líquidos não possuem verdadeiramente forma, assumem a forma do recipiente que as contem, mas tire o recipiente e voltam a não ter forma. Comecei a ter aulas de filosofia com uma professora da faculdade. A origem da tragédia de Nietzsche. A princípio achei que era só um livro inútil, que como diria Fernando Pessoa, era só um dos livros cuja função era evitar espaços vazios na estante. Então, comecei a aprender sobre apolíneo e dionisíaco, e percebi que de fato não se entende o que vem depois se não se entende o que vem antes. O homem busca dar forma às coisas, por isso se torna infeliz porque não pode, de fato, dar forma a tudo, tem que haver caos, desordem, porque não se pode evitar. Costumo pensar que a ordem das coisas que todos buscam seja justamente a desordem. Conheci um filósofo da faculdade que me fez perceber que me sentia mal por mudar tanto porque acreditava que poderia ter um estado de ordem perfeita, onde eu não precisaria mais mudar, como diria Michel de Montaigne: " O homem não é tão atingido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece. " Olhe senhor Líquido, é tudo uma forma de ver. É preciso encarar o caos, e se sentir bem com isso, é isso que entendo por Dionisíaco. Você usa máscaras, fica tentando ser algo, mostrar que é, fica mudando, os outros não aceitam a não forma alheia, é ameaçador para eles, porque eles se definem por formas e batem no peito e dizem : " este sou eu, quem é você? Você tem que se definir". Enquanto escrevia isso, lembrei-me de um dos textos budistas escritos por Osho, que eu costumava ler, e ele dizia: "quando me perguntam quem eu sou, eu respondo: eu sou consciência, porque de fato não existe eu, e na verdade somos a mesma coisa... Quando se olha profundamente uma gota de água, pode-se ver o Oceano", depois de tudo que aprendi isso começa a fazer bastante sentido, apesar de espiritualista. Me sentia mal por não ser definido, hoje não sinto, percebo que não preciso de fato. Me sentia mal por me sentir mal, por ter dúvidas sobre as coisas, mas após muito ler achei em Montaigne, uma passagem que diz mais ou menos que não deveríamos nos sentir mal por nada que acontece conosco porque se aconteceu é porque poderia acontecer, então é humano. Ser líquido, caótico é no momento o que eu vejo ser o homem, pode ser que essa visão mude, mas no momento é isso. Não conheço frase melhor para terminar esse texto do que a frase: " onde você vê consciência, eu vejo apenas o que é humano, ah, demasiado humano".

Um comentário: