sábado, 27 de setembro de 2014
Vai morrer – a crônica de uma sociedade doente
-Vai morrer!!!
Éramos eu, ou seja, um sujeito do pós-modernismo e meus dois ”druguis”: Roberto e uma menina cujo nome eu não me lembro, pois eu a conheci naquela hora. Mas por que chamar uma pessoa que acabara de conhecer e mal sabia o nome de “drugui” ( ou amigo em nadsat) ? Não é essa uma das características do “mundo moderno”? Parafraseando novamente Laranja Mecânica.
Bom, voltando à história.
Terminal da Praia Grande, esperando o ônibus para ir para um grupo de estudo de filosofia.
Conversando sobre Deleuze com o Roberto quando, de repente, vimos um velho sair gritando.
-Desgraçado! Eu sabia que tu não ia me esperar. Vou te pegar na próxima e destruir teu carro!
Ele estava praguejando contra o motorista de um ônibus que havia saído e não o tinha oesperado.
-Deve ser um bêbado ou louco! Pensei, tentando sair de perto. A minha atitude foi repetida por todos que estavam também por perto, porque também tiveram a mesma impressão minha. Se fosse bêbado ou louco, seria só mais um, mas não era nada disso, era um homem velho, negro, mal vestido, mas que trazia seu material de trabalho, um carro de mão com algumas coisas dentro. Continuei observando e percebi que ele praguejava porque estava colocando suas coisas dentro do ônibus e o motorista saiu sem o esperar, levando algumas de suas coisas.
O velho correu até uns guardas-civis que estavam também dentro do terminal, e foi contar sua história. O clima ficou um pouco tenso entre os outros passageiros que estavam assistindo à cena.
Acabou que não deu em nada com a polícia e ele voltou reclamando para os outros passageiros:
-Isso é uma falta de respeito. O brasileiro se cala. A gente não pode se calar!
E o velho continuou a reclamar em voz alta.
Ele falava para os outros como se desse uma justificativa social para seus atos.
Já estava indo embora quando um menino que vendia salgados numa plataforma que estava nas costas do velho gritou: - VAI MORRER!
O velho, que estava de costas e empurrava seu carro de mão para outra plataforma, parou no meio da rua, virou-se e perguntou: - quem disse isso?
Ninguém disse nada e o velho passou pelo garoto e foi tomar satisfação com um homem qualquer que estava por lá. Foi como se quisesse se mostrar valente; o outro homem ficou chamando o velho de louco.
O velho revoltado e um pouco feliz por ter a atenção de todos foi e colocou seu carro de mão no meio da rua, entre duas plataformas, de modo que impediria os ônibus de passar livremente. Aquilo pareceu uma forma de protesto, como se fosse um grito: “TODO MUNDO SE ACHA NO DIREITO DE PROTESTAR POR TUDO HOJE EM DIA. PROFESSORES QUE NEM VÃO ÀS ESCOLAS, FECHANDO AVENIDAS. MÉDICOS RICOS FAZENDO PASSEATAS POR MELHORES SALÁRIOS. ENTÃO, EU TENHO DIREITO DE PROTESTAR AQUI DENTRO DESSE TERMINAL.”
E o velho parecia orgulhoso de seus atos, ele tinha a atenção de todos, conseguiu até a atenção dos policiais que não o ajudaram quando ele pediu. Chegaram e mandaram que ele tirasse aquela merda de carro de mão do meio da rua e toda a bravura do velho se dissolveu em medo diante da figura do policial.
Os policiais começaram a falar, até que um deles foi ao carrinho de mão do velho e começou a mexer nele, tirou de lá de dentro um facão. Foi aí que liguei os fatos e percebi que o velho era jardineiro. Isso explicava o carrinho de mão, as roupas sujas, o jeito grosseiro e até o facão. Mas parece que isso não importava para os policiais, eles imobilizaram o velho à força. Ao meu ver, sem necessidade e levaram o velho para uma sala onde, creio eu, “ensinaram uma lição para ele”, porque um deles ficou fazendo guarda na porta e eles estavam todos com cacetete na mão.
Enquanto os policiais levavam o velho, o garoto dos salgados gritou novamente: - VAI MORRER!!!
E o velho foi levado e ninguém disse nada.
E pensar que tudo isso teria sido evitado se o motorista tivesse esperado, ou se o garoto “sátiro” não tivesse gritado: “vai morrer” para o velho.
Como o mundo está, não? Eu próprio não disse nada, apesar disso tudo ter me deixado perplexo. Mas eu estou na massa da pós-modernidade.
Como diria Deleuze : “Jamais interprete, experimente”. Mas o que isso tem a ver com a história? Não sei, eu apenas queria falar Deleuz, porque acho um nome lega., Eu nem se quer li Deleuze. Na verdade, para citar tal frase eu apenas botei no google: “Deleuze frases” e aí achei essa engraçada e quis botar, não é essa uma das maiores características da sociedade atual? Isto é, a facilidade de se obter informações desconexas?
Meu próprio jeito de escrever, sem seguir regras é um retrato do momento que o mundo está vivendo, uma falta de estilo formal, assim como Saramago fazia ao não utilizar certas pontuações. Minha própria forma de justificar dando exemplos de pessoas ilustres, usando assim argumentos de autoridade, é o que é exigido em nível acadêmico hoje em dia, não se pautando em fundamentação com conteúdo de por que fazer, mas de que faço porque assim é feito.
Está é a cara da pós-modernidade. Por vezes fico preocupado com os rumos que a sociedade vem tomando porque creio que se continuar assim ela... VAI MORRER.
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